AULA 15
AS CAMPANHAS NEGATIVASPortugal assistiu nas últimas eleições legislativas a uma
campanha eleitoral negativa, no verdadeiro significado da palavra "negativa"mostrando mais uma vez a crescente americanização da política portuguesa inspirada talvez em George W Bush.
Vamos abordar a forma como a campanha foi feita e as polémicas que criou.
Os rumores e boatos, os ataques pessoais, enfim toda a “
campanha negativa”, são marcas inequívocas de uma importação do que de pior se faz na política americana há muitos anos como iremos analisar.

O próprio Pedro Santana Lopes admitiu isso durante o debate quando confrontado directamente, por Sócrates em relação ao celebre cartaz da JSD: “As campanhas em que se fala dos adversários são hábitos em todas as democracias, nomeadamente, na “americana”, respondeu o ainda primeiro-ministro. Mas, esta admissão é apenas a ponta do véu. Sócrates tem razão num ponto – nunca se assistira em Portugal a uma campanha de ataque sistemático ao adversário, onde mais de metade do esforço de propaganda do partido do governo faz referência directa às posições da oposição em vez de veicular as suas próprias ideias.
É certo que as americanices não são novidade nas campanhas políticas portuguesas. Dos chapéus de palha, da candidatura presidencial de Freitas do Amaral, em 1986, aos aventais de Paulo Portas, há muito que os políticos portugueses se inspiravam nas “campanhas eleitorais americanas”.
A novidade é a imitação das tácticas da “campanha suja”.Santana Lopes e os seus assessores, copiaram as tácticas usadas pelo Presidente Americano em 2000 e 2004, acreditando que assim ganharima as eleições. Santana acreditava que pode fazer em Portugal uma cópia de uma” campanha eleitoral americana”.

“
Campanhas sujas” e a História Americana
As campanhas eleitorais americanas, foram sempre marcadas, por intensos ataques pessoais. Segundo os historiadores, a mais “suja” campanha de sempre decorreu em 1828, entre Andrew Jackson e John Quincy Adams – que, em 1796, chegou a ser ministro plenipotenciário dos Estados Unidos, em Portugal. A candidatura de Jackson chamava a Adams “O Chulo”, enquanto um jornal favorável a Adams, acusava a mãe de Jackson de ser “uma vulgar prostituta trazida pelos soldados ingleses”, mas as calúnias não se ficaram por aqui:
- adúltero
- dono de escravos,
- bêbados,
- analfabetos,
- conflituosos
- ateus
Foram alguns dos insultos trocados entre dois candidatos e quando, deixaram de ter nomes para chamar um ao outro, Jackson e Adams, voltaram-se, para as mulheres de ambos. Estava dado o mote, para um futuro promissor que, atravessa agora o Atlântico com quase dois séculos de atraso.
Boatos e Rumores
Em 2000, depois do senador John McCain ter vencido folgadamente, as primárias Republicanas em New Hampshire, a “máquina venenosa”, montada por Karl Rove –o arquitecto das campanhas de Bush – avançou em força para a Carolina do Sul, onde as sondagens apontavam, para uma derrota quase certa. Anúncios televisivos da candidatura de Bush atacavam McCain directamente, mas isso não chegava, de uma forma consistente e misteriosa, começaram a circular, entre o eleitoradoRepublicano fotocópias de uma fotografia de família de McCain, onde o Senador aparecia abraçado à mulher e ao seu filho adoptivo vietnamita.
A insinuação era clara: num estado sulista onde a guerra civil americana ainda é referida como, “a guerra da agressão nortenha”, onde o racismo ainda marca a vida quotidiana, a imagem de McCain abraçado a um adolescente de pele escura valia mais que mil palavras.Convém dizer que John McCain é um dos mais, emblemáticos políticos americanos – um Republicano moderado, que sempre se recusou curvar à chamada “direita religiosa” e que, assina propostas legislativas ao lado dos Democratas.Mas Rove, não se deu por satisfeito.
Paralelamente, à fotocópia da foto de família, surgiu um rumor segundo o qual, John McCain,teria problemas de estabilidade mental e emocional, como consequência de ter passado cinco anos da sua vida, como prisioneiro de guerra no Vietname. Ao mesmo tempo, alistou a “direita religiosa” para atacar também John McCain.Os golpes contra McCain resultariam e George W. Bush ganhou as primárias na Carolina do Sul, uma vitória que abriria caminho para, a disputa da Casa Branca.É verdade que, sempre existiram boatos e rumores na política eleitoral Portuguesa, mas é também verdade, que estes nunca tinham sido utilizados de forma tão deliberada e sistemática pela máquina de um partido.
O célebre cartaz da JSD contra José Sócrates é a imagem de marca da campanha feita por Pedro Santana Lopes mas a sua responsabilidade é atribuída à JSD, ilibando assim o Primeiro-Ministro.
Da mesma forma, que George W. Bush lavou as mãos do anúncio televisivo, que questionava o serviço militar de John Kerry no Vietname. Curiosamente, o Republicano John McCain, que em 2000 sofrera na pele os efeitos da “máquina venenosa” de Bush, veio de imediato a público classificar os ataques como deploráveis e desonestos,, tal como, alguns destacados militantes do PSD criticam agora a estratégia de ataque sem precedentes claramente, escolhida por Santana Lopes, mas, tal como McCain o fez em 2004, também eles, ainda assim vão votar no candidato que desprezam.
A vantagem política dos rumores, boatos e ataques indirectos é o facto de ser impossível, combatê-los de forma eficaz. Responder a insinuações nem sempre é uma manobra inteligente, e por vezes, não contestar ainda é pior (Kerry, esperou três semanas), até responder às acusações dos” swift boat vets”, numa estratégia, que tentava ignorar os insultos ,mas, que acabaria por lhe sair” o tiro pela culatra”, dado o impacto que o anúncio teve junto do eleitorado.
Há mais exemplos de estratégias simétricas entre a campanha de Santana Lopes e a arquitectura desenhada por Karl Rove, para as candidaturas de George W. Bush – a insistência em “issue politics”, ou política de “causas”, é outro, mas, ficará para um post futuro.Mas, outros paralelos existem, para muitos, tal como John Kerry face a George W. Bush,, José Sócrates é também o não-Santana. Tal como Kerry, Sócrates é monocórdico, desprovido de carisma, quase robótico.
Pedro Santana Lopes, tal como Bush, transpira uma imagem de incompetência e não se importa de jogar sujo, de chafurdar na lama, se pensar que com isso poderá continuar a seguir em frente. Depois de tudo isto, Pedro Santana Lopes e os assessores de imagem, que o aconselham a enveredar pela “campanha suja”, decalcada da campanha eleitoral americana, esquecem-se de um pequeno pormenor, Portugal não é os Estados Unidos e a realidade – e as tradições – políticas e sociais dos dois países tornam a transposição pura e simples de estratégias simplesmente risíveisl. Para mais, a juntar às diferenças, George W. Bush teve Karl Rove e um partido unido em peso atrás de si. Pedro Santana Lopes não tem ninguém equiparável a Rove e o PSD, por sua causa, enfrenta uma profunda crise de identidade.
Luís Paixão Martins, responsável de marketing da campanha eleitoral do PS, explicou a campanha do PS: «Começámos por fazer esta investigação, depois criámos argumentos, imagens e peças de comunicação que foram sendo testadas em "focus group", em painéis de cidadãos que foram sendo confrontados com ideias» e acrescentou que «Nos estudos de opinião o desemprego apareceu destacado como a grande prioridade, enquanto uma questão como a justiça foi remetida para segundo plano» ... «Aliás os portugueses não querem as tão faladas reformas políticas se elas trouxerem instabilidade à sua vida».
O rumor atende a uma necessidade humana, que reúne as expectativas e ansiedades. A pessoa quer saber o que está acontecendo a seu redor ou até um pouco mais longe. Essa curiosidade inata está na base de sua segurança, quer dizer, sabendo o que ocorre, a pessoa pode-se equilibrar, harmonizar-se, Ficar feliz em saber que está salva, livre de ameaças. E quando se informa que o perigo também está perto de si, procura, por todos os meios, precaver-se. E a melhor maneira, portanto é buscando o escudo da informação.
Reveste-se o ataque ao adversário num formato humorístico, o que o torna menos agressivo e mais aceitável para o eleitor. O argumento é que o espectador é mais receptivo à informação negativa se ela for apresentada num formato humorístico do que se for exposta de uma maneira directa e agressiva.
Há estudos que confirmam que o ataque humorístico é lembrado por mais tempo e deixa uma impressão duradoura em quem o assiste. Mais que isto, se o ataque humorístico tiver sucesso fazendo o espectador rir, cria-se por meio dele uma cumplicidade, entre quem o produz , veicula , quem assiste, julga-o divertido e adequado. Implicitamente, o candidato atacado é também ridicularizado pode tornar-se objecto de abalar a seriedade da sua candidatura, assim a mensagem negativa é repassada, para o eleitor que a retêm e o autor do ataque que consegue evitar o ónus politico da sua acção exactamente pela cumplicidade que estabeleceu com o eleitor.
Se o eleitor achou graça riu e contou a outros, então perdeu a autoridade moral de censurar quem a fez.
Tudo isto pode ocorrer desde que o ataque humorístico tenha sucesso. É obvio que se o ataque for percebido como uma peça de mau gosto, sem graça e injusto, não se estabelece aquela cumplicidade com o espectador e a vítima do ataque dele não beneficia politicamente.
Um dos primeiros anúncios de ataque com características humorísticas foi produzido por Tony Schwarz, para a campanha de Hubert Humphrey e dirigido contra Spiro Agnew, companheiro de Richard Nixon em 1968 nos EUA, trata-se de uma peça muito curta, num formato minimalista, mas que, se tornou num clássico da publicidade politica.
A câmara começa focando um aparelho de televisão, padrão fechada nos botões e controles deixando de fora de visão a tela, ao mesmo tempo, ouve-se em off uma risada, que se transforma numa incontrolável gargalhada, enquanto a câmara move-se, para trás permitindo ver a imagem da tela.
Enquanto a gargalhada continua aparece na tela a mensagem: Agnew para Vice Presidente ?a gargalhada alcança o seu ponto máximo no momento em que, a mensagem ocupa toda a tela
A peça termina substituindo aquela mensagem por outra: isto seria engraçado se não fosse tão sério.
A mensagem era clara: colocar Spiro Agnew, tão próximo dos poderes da Presidência, era uma piada.
“A mensagem também se aplica aos candidatos presidenciais. Soares precisa de abandonar a campanha negativa concentrada em Cavaco. Em certo sentido, faz mais ele campanha «por» Cavaco do que o próprio. E Cavaco precisa de se comprometer, tomar posição a propósito de problemas sensíveis, mesmo que não se enquadrem no âmbito do mandato do Presidente da República. Sim, a Ota precisa de uma análise custo-benefício. Seria pedir muito que fosse mais claro?”
Jonral de Negócios Luísa Bessa 24 de Novembro de 2005
«Começámos por fazer esta investigação, depois criámos argumentos, imagens e peças de comunicação que foram sendo testadas em "focus group", em painéis de cidadãos que foram sendo confrontados com ideias» e acrescentou que «Nos estudos de opinião o desemprego apareceu destacado como a grande prioridade, enquanto uma questão como a justiça foi remetida para segundo plano» ... «Aliás os portugueses não querem as tão faladas reformas políticas se elas trouxerem instabilidade à sua vida».
Luís Paixão Martins responsável de Marketing da campanha eleitoral do PS
Frase da Semana
Como afirmava peremptório, Ernesto (Che) Guevara ao seu amigo Alberto Granado, durante a longa jornada pela América do Sul, “Boatos não têm valor científico, há que fazer experiência.” (Chile, 1952)
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Sérgio Silva
Nº135